Seu cérebro não é preguiçoso — ele só está mal configurado

Seu cérebro não é preguiçoso — ele só está mal configurado
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O texto argumenta que a procrastinação não é fraqueza moral nem preguiça — é um conflito neurológico entre três sistemas cerebrais com “idades” e forças diferentes. A solução não está em mais técnicas de produtividade, mas em compreender a origem do bloqueio (energética, emocional ou ambiental) e realinhar o cérebro com aquilo que genuinamente move a pessoa. A mensagem-chave é: Seu cérebro não é preguiçoso e ele pode ser reprogramado — mas primeiro você precisa entendê-lo. E agora para mudar isso.

“Amanhã eu começo.”

Se essa frase soa familiar, você não está sozinho. Ela talvez seja uma das mais repetidas da história da humanidade — e também uma das mais incompreendidas. A procrastinação costuma ser tratada como falta de caráter, imaturidade ou simples preguiça. Mas e se o problema não fosse você, e sim a forma como o seu cérebro foi configurado para reagir ao mundo?

É exatamente isso que o Dr. Gabriel Tortella, psicólogo e doutor em neurociências, defende. Especialista com mais de 16 anos de atuação clínica e 12 anos de pesquisa laboratorial na USP — onde estudou técnicas avançadas de estimulação cerebral não invasiva —, Tortella vem chamando a atenção de quem o ouve com uma proposta simples: antes de buscar técnicas, é preciso entender o inimigo.

“Técnica é o que não falta. Agora, a técnica por si só não vai resolver — ela vai dar falsa produtividade. O que a gente precisa é conhecer.” — Dr. Gabriel Tortella

Preguiça ou procrastinação? Existe diferença — e é enorme

Antes de mais nada, vamos acertar o vocabulário, porque isso importa muito. Preguiça e procrastinação são palavras que usamos como sinônimos, mas tecnicamente são coisas bem diferentes.

A preguiça, segundo Tortella, é quando você simplesmente não quer fazer algo — não há motivação, não há energia, não há motivo que te faça querer agir. A procrastinação, por sua vez, é outra história: você quer fazer, você sabe que precisa, você tem clareza de que vai se prejudicar se não fizer — e ainda assim não consegue começar.

A definição acadêmica é bastante precisa: procrastinação é o adiamento consciente de uma tarefa que sabidamente trará prejuízo se não for realizada.

Ou seja: não é inconsciente. Não é falta de informação. É como se duas vozes travassem um cabo de guerra dentro de você — uma dizendo “vai lá fazer” e outra inventando mil motivos para esperar mais um pouquinho.

Curiosidade: A procrastinação não aparece como transtorno nem como sintoma nos principais manuais diagnósticos da psiquiatria, como o CID-10 ou o DSM-5. Isso significa que ela não é uma doença — mas também não significa que pode ser ignorada.

O mapa do pirata: de onde vem essa sensação de estar sempre devendo algo

Para entender a procrastinação, Tortella convida a gente a olhar para um passo atrás: o contexto em que vivemos. Ele usa uma metáfora bem criativa — a do mapa do pirata.

“Desde que nascemos, sem ter escolhido, recebemos um mapa”, explica ele. “Nele está escrito o que temos que fazer para ser felizes: estudar muito, arrumar um emprego que dê dinheiro, casar, ter filhos, comprar casa.” É o roteiro básico que a sociedade entrega para quase todo mundo.

O problema é que muita gente segue esse mapa à risca — e mesmo assim não encontra o “tesouro” prometido no final. E quando o esforço não gera a felicidade esperada, o cérebro começa a fazer perguntas perigosas: para quê continuar? Por que me esforçar tanto se os resultados não chegam?

É justamente aí que surge o terreno fértil para a procrastinação e para os vícios modernos — especialmente os digitais.

“O celular é o crack digital. Tem droga que você fuma, tem droga que você cheira — essa você olha. É muito mais fácil se viciar.” — Dr. Gabriel Tortella

O Brasil figura entre os países com maiores índices de depressão, ansiedade e estresse do mundo. E boa parte disso, segundo Tortella, está relacionada à dissonância entre o mapa que recebemos e a realidade que encontramos. A procrastinação é, muitas vezes, um sintoma desse desalinhamento — não uma falha de caráter.

O cérebro em três camadas: apresentando o jacaré, o cachorro e o executivo

Aqui começa a parte mais fascinante da conversa com Tortella — e também a mais reveladora. Para explicar por que procrastinamos, ele recorre ao modelo do neurocientista Paul MacLean, que na década de 1970 desenvolveu a teoria do “cérebro trino”.

Embora hoje a teoria seja considerada simplificada do ponto de vista anatômico — o cérebro humano é muito mais interconectado do que MacLean supunha —, ela funciona muito bem como ferramenta didática para entender o comportamento humano.

A ideia central é que o nosso cérebro opera em três grandes sistemas:

1. O cérebro reptiliano (o “jacaré”): é a parte mais antiga do cérebro, formada já no útero. Aqui vivem os instintos puros de sobrevivência — fome, reprodução, energia. O jacaré não sente emoções e não chora. Ele só quer sobreviver. E, com 80% dos neurônios do cérebro, é o sistema mais bem treinado que temos.

2. O sistema límbico (o “cachorro”): se forma na adolescência e é o centro das emoções. É aqui que vivem os nossos medos, desejos, apegos e vícios. O cachorro reage — não age. Ele é movido por dores que quer evitar e prazeres que quer alcançar.

3. O neocórtex (o “executivo”): é a camada mais recente da evolução, responsável pelo raciocínio lógico, planejamento e tomada de decisão consciente. É onde mora a nossa humanidade. Mas atenção: ele só termina de se desenvolver por volta dos 21 a 25 anos.

A grande sacada de Tortella é perceber que esses três sistemas têm “tempos de treino” diferentes — e que o jacaré, por ser mais antigo e mais numeroso em neurônios, quase sempre ganha quando há conflito interno.

Quando você está com fome, estressado ou exausto, o jacaré assume o comando. E aí o plano de trabalhar, estudar ou fazer exercícios vai por água abaixo — não porque você seja fraco, mas porque a hierarquia cerebral funcionou exatamente como deveria.

O imã, a panela de pressão e o vício: como as emoções sequestram sua ação

Uma das explicações mais inteligentes que Tortella usa é a do imã. Pense nas suas emoções como campos magnéticos. Quando algo te atrai (um prazer, uma recompensa imediata), você é puxado para lá de forma quase irresistível. Quando algo te amedronta (uma tarefa difícil, um risco de fracasso), você é repelido automaticamente.

“Você não tem escolha para querer fugir de um medo”, ele explica. “Não é algo que você decide — é automático.”

Os vícios, nesse contexto, são ímãs extraordinariamente fortes. O celular, as redes sociais, os jogos digitais — todos foram projetados para acionar esses campos magnéticos com precisão cirúrgica. E quando a sua energia emocional fica represada entre o jacaré e o sistema límbico, sem conseguir chegar ao neocórtex, o que acontece? Estresse, ansiedade, culpa. É como uma panela de pressão tampada no fogo — sem válvula de escape, a tendência é explodir.

Procrastinar uma tarefa muitas vezes não é evitar a tarefa em si — é evitar a sensação desagradável que ela provoca. Você procrastina a emoção, não a ação.

Essa distinção muda tudo. Porque se você só tenta resolver a procrastinação com técnicas de gestão do tempo, está ignorando a causa real do problema: o bloqueio emocional que impede sua energia de chegar ao cérebro executivo.

A história da senhora e o varal: por que você não enxerga o problema com clareza

Tortella conta uma história simples que diz mais do que qualquer teoria complexa.

Uma senhora reclamava todos os dias que o vizinho não lavava direito as roupas — elas secavam no varal sempre com manchas. Até que um dia o marido limpou a janela suja da casa deles. Na manhã seguinte, ela olhou e disse: “Nossa, hoje ele lavou direitinho!”. O marido respondeu: “Não, fui eu que limpei o vidro da nossa janela.”

A moral? Quando estamos presos no modo emocional, enxergamos tudo através de uma lente embaçada. Não conseguimos usar a lógica, o raciocínio, o “por quê”. E é impossível resolver um problema que você não está conseguindo ver com clareza.

Por isso, antes de qualquer técnica, o caminho é limpar o vidro — ou seja, trabalhar o aspecto emocional que está distorcendo a sua percepção da realidade.

O que realmente funciona: do básico esquecido ao combustível de foguete

Tudo bem. Chegamos à parte prática. Depois de entender a estrutura, quais são os passos concretos que Tortella recomenda?

Passo 1: Cuide do básico — ele não é tão básico assim

Antes de qualquer estratégia sofisticada, Tortella bate em uma tecla simples, mas profunda: energia. O seu cérebro só vai funcionar bem se o seu corpo estiver abastecido. Isso significa sono adequado (cada pessoa tem sua necessidade específica), alimentação consistente, exposição à luz solar e alguma forma de atividade física — mesmo que sejam apenas 20 minutos de exercício aeróbico por dia.

“Se a energia não entra no sistema, o jacaré não vai deixar nada passar. Fica tudo represado.”, resume Tortella.

Dado curioso: cerca de 50% dos brasileiros apresentam algum grau de deficiência de vitamina D. Além dos impactos físicos, a falta desse nutriente pode aumentar o cansaço e a dificuldade de concentração — fatores que alimentam a procrastinação diretamente.

Outro ponto pouco discutido: pegar o celular à noite quando você está exausto não é descanso — é trabalho para o sistema límbico. Você está alimentando o imã, não recarregando a bateria.

Passo 2: Identifique a origem — cada procrastinação tem uma causa

Não existe uma solução única porque não existe uma causa única. A origem da sua procrastinação pode ser energética (cansaço físico), emocional (medo de fracasso, ansiedade, crenças limitantes) ou relacionada ao ambiente ao seu redor.

A pergunta mais poderosa que você pode fazer, segundo Tortella, é simplesmente: “Por quê?”. Por que eu não quero fazer isso? Por que eu fico travado nessa tarefa? A resposta não vai vir de imediato sempre, mas o hábito de se perguntar já começa a ativar o neocórtex — e isso, por si só, já é um avanço.

Passo 3: Use o design ambiental a seu favor

Tortella é entusiasta do que chama de “design ambiental”: organizar o seu espaço físico e social de forma que os ímãs negativos fiquem longe e os positivos fiquem próximos.

Se você sabe que o celular vai te distrair, coloque-o em outro cômodo. Se sabe que um computador específico te leva a jogar jogos, trabalhe em outro. Parece simples — e é. Mas a maioria das pessoas subestima o poder do ambiente e superestima o da vontade.

“Não tem profecia. Tem padrão que se repete. Eu já sei que isso vai acontecer — então vamos usar a parte cortical para montar um plano.” — Dr. Gabriel Tortella

Passo 4: Coloque o combustível de foguete

Aqui chegamos ao ponto mais profundo da conversa. Técnicas funcionam. Ambiente ajuda. Mas o que sustenta tudo isso no longo prazo — o que Tortella chama de “combustível de foguete” — é algo muito maior: o alinhamento entre o que você faz e quem você é.

Desejo é o mais fraco dos motores. Você compra algo que desejava e logo esquece que tem. Motivação é mais forte — ela se baseia em dores que você quer evitar e conquistas que quer alcançar. Mas o propósito é o combustível mais potente de todos. Quando o que você faz está alinhado com algo que você coloca acima de si mesmo, a procrastinação perde muito da sua força.

O propósito não precisa ser fixo nem grandioso. Ele pode mudar. Pode ser criar uma família, ajudar pessoas, construir algo, aprender. O que importa é que seja real — não uma resposta de mapa do pirata, mas algo que de fato ressoa com quem você é.

Perdido em Marte e o astronauta que tentou 11 vezes: sobre não desistir

Tortella cita dois filmes que ilustram bem a mentalidade de quem enfrenta os problemas em vez de fugir deles.

No filme “Perdido em Marte” (The Martian, 2015), o protagonista fica sozinho no planeta vermelho enquanto a NASA o considera morto. Sem escolha, ele começa a resolver os problemas um a um. No final, há uma fala que Tortella adora: “No espaço, se você resolver problemas o suficiente, você volta vivo.”

O outro exemplo vem do filme “A Milhões de Quilômetros” (A Million Miles Away, 2023), baseado na história real de José Hernández, o primeiro astronauta mexicano da NASA. Ele se inscreveu 11 vezes no programa de seleção antes de ser aceito. Em determinado momento, chegou perto de desistir — até que a esposa, em vez de concordar, perguntou: “O que um astronauta tem que você não tem?” E então começaram a trabalhar ponto a ponto.

“Frente a um problema, eu posso fugir. Posso jogar a culpa em alguém. Posso me esconder. Ou posso encontrar uma solução.” — Dr. Gabriel Tortella

Essa é, no fundo, a escolha que está na raiz de toda procrastinação. E a boa notícia é que ela pode ser treinada.

Reprogramar é possível — e tem base científica

Neuroplasticidade é a capacidade que o cérebro tem de se reorganizar, criar novos caminhos e modificar conexões ao longo da vida. É isso que torna a reprogramação possível — e não é metáfora motivacional, é ciência.

“Toda vez que eu vou daqui para lá, eu uso essa estrada. Mas eu posso recalcular”, explica Tortella. “Posso criar um novo caminho neuronal — e isso, com repetição e consistência, vai se tornando o caminho padrão.”

Isso não acontece de um dia para o outro. O cérebro é cíclico, não linear. Haverá momentos de avanço e recaídas. Isso é normal — é assim que o aprendizado funciona, da síntese de proteínas no nível celular às mudanças de hábito no nível comportamental.

Uma pessoa que procrastina hoje não está condenada a procrastinar para sempre. Essa é uma das afirmações mais libertadoras que Tortella faz — e ela tem embasamento tanto na neurociência quanto na prática clínica.

O papel das crenças: você acha que não é capaz?

Tortella menciona o trabalho de Aaron Beck, criador da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que identificou duas crenças centrais presentes em praticamente todos os seus pacientes: a sensação de não ser amado e a sensação de não ser capaz.

Quando a crença de “não sou capaz” está no centro das suas emoções, como você vai iniciar algo? A ação requer minimamente a crença de que o esforço faz sentido. Se no fundo você acha que vai fracassar de qualquer forma, o sistema límbico vai encontrar mil formas de te manter parado.

Tortella também cita Jeffrey Young, psicólogo que desenvolveu a terapia do esquema — uma extensão da TCC que mapeou 18 padrões disfuncionais que se formam na infância e moldam o comportamento adulto. Muitos deles alimentam diretamente a procrastinação crônica.

A boa notícia: identificar essas crenças já é o primeiro passo para mudá-las. E para isso, técnicas como o questionamento socrático — perguntar o porquê dos próprios pensamentos de forma sistemática — são ferramentas poderosas e acessíveis.

Então, o que você faz agora?

Se você chegou até aqui, provavelmente se reconheceu em algum momento desta leitura. Talvez no mapa do pirata que te foi entregado sem você pedir. Talvez no jacaré que toma o controle quando você está exausto. Talvez nas vozes que travam cabo de guerra dentro da sua cabeça.

A mensagem central de Tortella não é simples nem fácil — mas é honesta: não existe atalho. Existe, porém, um caminho real, baseado em compreensão, autoconhecimento e ação consistente.

Comece pelo básico: durma bem, coma direito, mova o corpo e tome um pouco de sol.

Depois, pergunte-se: de onde vem minha procrastinação? É cansaço? É medo? É crença? É ambiente?

Em seguida, organize o ambiente ao seu redor para que ele trabalhe a seu favor.

E por último — mas não menos importante — encontre o seu combustível de foguete.

Não precisa ser o propósito da sua vida inteira. Pode ser algo pequeno, mas real. Algo que, mesmo nos dias difíceis, ainda faça sentido para você.

“A gente sempre vai estar se desenvolvendo — sempre é possível recomeçar. Entender isso, ver que no fundo a mudança cerebral existe para mostrar que a gente pode mudar, é uma das coisas mais bonitas da neurociência.” — Dr. Gabriel Tortella

Seu cérebro não é preguiçoso. Ele é adaptável. E você pode reescrevê-lo — um passo de cada vez.

Referências e créditos

• Dr. Gabriel Tortella — Psicólogo (CRP) e doutor em neurociências pela Universidade de São Paulo (USP). Pesquisador das áreas de neuropsicologia cognitiva, estimulação cerebral não invasiva e procrastinação. Atende em Vinhedo (SP). Perfis: @gabrieltortella no Instagram, YouTube e TikTok.

• Pier Steel — Psicólogo canadense, um dos maiores estudiosos da procrastinação. Realizou uma metanálise com mais de 801 estudos sobre o tema. Livro de referência: “The Procrastination Equation” (A Equação da Procrastinação).

• Paul MacLean — Neurocientista norte-americano, chefe do Instituto Nacional de Saúde dos EUA. Desenvolveu a teoria do Cérebro Trino ao longo de 30 anos de pesquisa. A teoria é hoje utilizada com fins didáticos e de psicoeducação.

• Aaron Beck — Psiquiatra, criador da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Suas pesquisas sobre crenças centrais são referência mundial em psicologia clínica.

• Jeffrey Young — Psicólogo e aluno de Beck, criador da Terapia do Esquema. Mapeou 18 esquemas desadaptativos precoces que moldam comportamentos ao longo da vida.

• Alessandra Seabra — Professora e neuropsicóloga da Universidade São Francisco (Itatiba/SP), atualmente no Mackenzie (São Paulo). Orientadora do Dr. Tortella durante a graduação.

• Filme: “Perdido em Marte” (The Martian, 2015) — dirigido por Ridley Scott, baseado no livro de Andy Weir.

• Filme: “A Milhões de Quilômetros” (A Million Miles Away, 2023) — baseado na história real de José Hernández, primeiro astronauta mexicano da NASA.

• Episódio original: Luts Podcast #427, com Dr. Gabriel Tortella — disponível no YouTube no canal do Luts Podcast.

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